terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

ENTREVISTA – O motoviajante que percorreu sozinho 13.800 km da América Latina

Gustavo e sua moto em Salto (Colômbia)

Fotos de Gustavo de Oliveira Marques
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O blog Descobertas do Thelmo inaugura, com esta entrevista, uma série de papos com viajantes apaixonados. Eles têm grandes histórias de viagens, algumas verdadeiras aventuras.
Nosso primeiro convidado é o administrador de empresas mineiro Gustavo de Oliveira Marques, de 43 anos, que atualmente vive em Belo Horizonte. Motociclista ou motoviajante, como ele gosta de se autodenominar, dono de uma Triumph modelo Tiger Explorer 1200cc (“foi o presente de 40 anos que eu me dei”), ele enfrentou recentemente 13.800 km por vários países da América Latina.

Descobertas do Thelmo - Gustavo, esta é sua primeira experiência com uma viagem deste porte?

Gustavo - Não, a terceira. A primeira foi em 2015/2016. Nesta viagem, percorri a rota que saiu de Minas, passando por Goiás, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Acre, São Paulo até chegar no Peru, Chile, Argentina e Paraguai. A segunda viagem foi em 2016/2017. Visitamos os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, descendo para o Uruguai, Argentina e o Chile. Foram duas experiências diferentes. Na primeira, viajei com um amigo e uma moto de companhia; na segunda, fui com filho Gustavo (na garupa) e com o amigo José Alcione.

DdoT - Este ano, você fez um tour pela América Latina, que acompanhamos pelas redes sociais. Quais foram os países e quantos quilômetros foram rodados? Foi sozinho ou acompanhado?

Gustavo – Nesta última viagem optei em ir só. Construí um projeto de viagem com uma estimativa de tempo de 45 dias, alto grau dificuldade e um trajeto pouco comum entre os motoviajantes. A meta era percorrer a Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, entre capitais, cidades principais e pontos turísticos. Foram rodados 13.800 km até a cidade de Manaus (AM), de onde peguei um avião e retornei a Belo Horizonte.

DdoT - Como é a preparação para uma viagem deste porte?

Gustavo - A preparação de uma viagem demanda um planejamento muito bem feito que necessita de estudo. Começo pela definição do objetivo. No meu caso, foi conhecer a Colômbia, seu povo, cultura, gastronomia, economia, segurança e mobilidade. Em seguida, elenco as metas secundárias, ou seja, visitar todas as capitais e principais cidades, interagindo com o povo, sua cultura e conhecendo a gastronomia local. Em seguida, organizo um cronograma, para distribuir o tempo disponível para viagem, que passa também pela relevância de cada ponto que eu visito. Planejo, ainda, as melhores rotas para percorrer, o deslocamento médio diário, os custos (combustível, hospedagem, alimentação, dentre outros). Reviso também os equipamentos de segurança, organizando as roupas para o frio e para o calor. Isso tudo deve caber numa bagagem pequena e prática. Faço, por fim, o levantamento dos possíveis incidentes de viagem e preparo os equipamentos que me deem segurança para enfrentar as situações de risco, tais como jogo de ferramentas, galão de combustível e outras tranqueiras de motociclistas.

DeT - Quais foram os maiores obstáculos?

Gustavo - O primeiro desafio foi vencer os pessimistas de plantão que, no meu caso, foram praticamente todas as pessoas, dentre eles os familiares, amigos e colegas. Todos achavam que era perigoso viajar sozinho, principalmente percorrendo países como a Colômbia e Venezuela. Enfrentei também todo tipo de intempéries, como vários tipos de relevo e pisos das rodovias. O clima também variava muito, com temperaturas que foram de zero a 42 graus. E isso foi extremamente exaustivo de enfrentar. Por causa dessa variedade, a moto também vacilou. Somente agora, quando retornei da viagem, consegui diagnosticar um problema com a válvula termostática. Outro problema foi a permissão para entrar na Venezuela. A aduana Venezuelana de Paraguajon (que faz divisa com Maicao, na Colômbia) estava fechada para carros e motos há mais de três anos por motivos políticos entre os dois países. Mas, felizmente, consegui superar este obstáculo.

DdoT - Dos lugares visitados, conte-me sobre as experiências mais inesquecíveis.

Gustavo - Cada lugar tem sua relevância. Na Bolívia, por exemplo, conheci a capital La Paz, Santa Cruz de la Sierra e a selva amazônica. No Peru, enfrentei o ponto mais alto da rota, com 4.980 metros, em Desaguadeiro. Percorri também desertos e a rodovia Panamericana, que margeava o Oceano Pacifico, num visual incrível. No Equador, fiz a rota dos vulcões, que achei surpreendentes e maravilhosos, diferentes de todo que já vi. Quito, a capital, é uma cidade movimentada, com seu povo extremamente festivo e um grande potencial turístico. Encontrei uma Colômbia pacificada, depois de tantos anos enfrentando problemas com o narcotráfico. As rodovias, mesmo com os  problemas logísticos causados pelas cordilheiras (muitas subidas e descidas), são tranquilas e seguras de trafegar. O povo colombiano é alegre e saudosista. A capital Bogotá é gigante, linda, com manifestações culturais por toda a parte. A noite é muito agitada, com pubs, restaurantes e uma grande quantidade de cervejas artesanais deliciosas. Passei ainda por Medelín, onde encontrei pessoas do mundo inteiro, e a fascinante cidade histórica de Cartagena das Índias. Fui até a Ilha de San Andrés, onde conheci o Mar do Caribe. São lugares que ficarão para sempre na minha memória. Por fim, a Venezuela, país devastado política e socialmente, onde o povo vive abaixo da linha da miséria, com muitos passando fome. Visitei cidades importantes como Maracaibo, Barquisimeto, El Tigre (maior reserva de petróleo do pais), Ciudad Guayana. Fui à região de El Callao, El Eldorado e Las Claritas, dominada pelo garimpo, onde nem a Guarda Nacional venezuelana tem o controle sobre as ações de exploração. Atravessei La Gran Sabana com seus montes, saltos e encantos que me deixaram extremamente emocionado, sem palavras. Por fim, adentrei a região da selva entre Roraima e Amazonas, com suas florestas, rios e cachoeiras que não me saem da memória.

DeT - Já tem um novo projeto? Quando será?

Gustavo - Sim, minha próxima meta é visitar as Guianas inglesa e francesa e o Suriname, me deslocando pelos estados do Nordeste e do Norte do Brasil. Pretendo viajar em julho de 2019.


Na primeira viagem, visitando as Torres del Paine, no Chile

Com o filho Gustavo, na segunda viagem

Gustavo pai e Gustavo filho, em Perito Moreno, na Argentina

 Bolívia

Em 2017-2018 na chegada à Bolívia

Na Ruta de la Muerte, na Bolívia

Na Bolívia, entre Cochabamba e La Paz
Na selva boliviana


La Paz

La Paz: a maior feira a céu aberto do mundo

Peru


Entre o deserto e o Oceano Pacífico

Tarata

Lima

Equador


Rota dos Vulcões

Ao fundo o vulcão Cotopaxi

Quito

Colômbia


Bogotá

Bogotá

Cartagena

Medelin

San Andrés

Venezuela e Brasil


Na aduana entre Colômbia e Venezuela

La Gran Sabana

Monte Roraima



quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

DICA DA SEMANA: Flanando em São Cristóvão, cidade histórica sergipana

Praça São Francisco, patrimônio da Humanidade


Fotos de Thelmo Lins

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Você conhece o Sergipe? O pequeno estado brasileiro, com menos de 22 mil km2, surpreende por seus atrativos, como as belas praias, a represa de Xingó e a foz do Rio São Francisco. Estive lá no Reveillon de 2005 para 2006, hospedando-me em Aracaju.
            Mas o assunto de hoje não será a capital e nem o litoral, mas São Cristóvão, que fica no interior, a 29 km de Aracaju.
            São Cristóvão foi a primeira capital de Sergipe, fundada em 1590, o que faz dela a quarta cidade mais antiga do Brasil. Tem cerca de 90 mil habitantes. Guarda, em seu centro histórico, uma preciosidade: a praça São Francisco. Graças à sua beleza e importância história, ela foi tombada, em 2010, como Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco. Por isso, o turismo local ganhou uma nova proporção.
            Fazem parte do casario do centro, muito bem preservado, o Convento e a Igreja de São Francisco, os museus de Arte Sacra e Histórico, o antigo Palácio do Governo, a Praça da Matriz e vários outros belos templos.
            Quando estive lá, o conjunto ainda não tinha sido agraciado pelo título, e por isso o movimento de turistas não era tão intenso. Atualmente, na cidade, existe até mesmo um memorial da Irmã Dulce, beata que iniciou sua vida religiosa no Convento das Carmelitas.
            Para conhecer São Cristóvão, aluguei um carro. Assim, foi possível rodar a região e até dar um pulinho em Laranjeiras, outra interessante cidade histórica (que falaremos posteriormente) de Sergipe. Aproveitei a viagem para apreciar a culinária regional e até saborear o famoso bricelet, biscoito criado e comercializado pelas religiosas da Congregação das Irmãs Missionárias Lar Imaculada Conceição. Ele tem o sabor parecido com o da casquinha de sorvete. Se tiver calor, pode pedir uma bola de creme para acompanhar. Funciona bem.
            Mas o bom mesmo é flanar. Ou melhor, andar à esmo pelas ruazinhas antigas e tão acolhedoras.
            Quando viajar ao estado, não deixe de conhecer essa preciosidade e outras preciosidades.
            Na semana que vem, darei uma nova dica de viagem. Grande abraço!











Restaurante local

Wagner e a praça


Bricelet


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

DICA DA SEMANA: Na Roliúde Nordestina

Wagner e eu na Roliúde Nordestina



            Você sabia que temos uma Roliúde brasileira? E que ela fica no Nordeste, mais especificamente na Paraíba? E que ali já foram rodados mais de 25 filmes? Pois bem, esta cidade existe e se chama Cabaceiras e dificilmente pode ser encontrada nos guias de turismo, mas é uma excelente opção de passeio.
            Eu a conheci, em companhia de meu amigo Wagner Cosse, em 2009, durante uma viagem àquele estado nordestino. Ela fica a 180 km de João Pessoa e a 70 km de Campina Grande. Como estávamos hospedados na capital, a sugestão na época foi alugar um táxi para conhecer melhor a região, conhecida como Cariri.
            Depois de boa parte do trajeto feito por rodovias asfaltadas, pegamos uma estradinha de terra. Estávamos no semiárido nordestino, terra seca, onde nascem um sem número de espinhosos cáctus. Sentimo-nos em uma atmosfera de filme de cangaço. Por causa da beleza da paisagem e do casario de Cabaceiras, ela se tornou uma das cidades preferidas dos cineastas para filmes dessa natureza. Para se ter uma ideia, foram rodados na região películas como “O Auto da Compadecida”, “Romance”, “Cinema, Aspirinas e Urubus”, dentre outros. E isso vem de longe, desde 1921, quando a cidade foi o palco do primeiro filme.
            Cabaceiras parece mesmo um set de filmagem. Os edifícios coloridos, as praças e ruas criam um cenário especial. Na época, conhecemos uma jovem (não me lembro de seu nome agora), que foi nossa guia pelas belas ruas. Ela nos levou ao museu municipal, à igreja matriz e à praça principal. Conhecemos, também, o local aonde acontece a famosa festa do Bode Rei, que atrai mais de 20 mil visitantes nos primeiros dias de junho. E tem até várias estátuas em homenagem a este animal tão querido nas praças da cidade.
            Perto de Cabaceiras fica o incrível Lajedo do Pai Mateus, que tem este nome porque ali viveu durante muitos anos um eremita com este nome, a quem davam poderes sobrenaturais. As pedras parecem ter sido colocadas ali uma a uma,  combinando harmoniosamente com a paisagem. Tivemos a sorte de pegar uns raros pingos de chuva, que formaram um belíssimo arco-íris. Digo raros, porque chove muito pouco nessa parte do país. E as cores que surgiram no céu foram tal e qual uma bênção.
            Dali também se avista um dos mais belos pores de sol que já vi em minha vida. Ficamos tão emocionados, que chegamos a verter algumas lágrimas. E suspiramos: “como é belo o nosso país!”
            Vale ressaltar que, no caminho para Cabaceiras, fica o impressionante Sítio Arqueológico da Pedra do Ingá ou Itacoatiara do Ingá (a 38 km de Campina Grande). Sem qualquer infraestrutura – pelo menos na época em que visitamos o local – o sítio abriga desenhos e inscrições rupestres talhadas na rocha. São muitas e variadas imagens de um valor inestimável, que estavam muito desamparadas, apesar do tombamento pelo IPHAN em 1944. Digo isso, porque não havia segurança no local. Dessa forma, visitantes mal intencionados tinham feito rabiscos ou colocado seus nomes em muitas imagens.
            Há muita controvérsia em relação à época e a autoria dos entalhes. Muitos acreditam que elas foram criados por habitantes da região há 6.000 anos. Outros defendem até interferência de habitantes de outros planetas na confecção dos desenhos. O certo é que eles ocupam painéis imensos, com grande beleza e de uma indiscutível importância história.
            Com o sol já de punha no sertão do Cariri e anunciava a chegada de uma lua cheia, era hora de retomar o nosso táxi e voltar para João Pessoa, onde estávamos hospedados. Para quem quer ficar mais tempo nas localidades citadas, há opções em Cabaceiras e Campina Grande.
            Espero que tenham gostado da dica. Ficamos por aqui e, na próxima semana, relembraremos mais uma viagem sedutora, que faz parte das minhas andanças pelo país e pelo mundo.
            Até lá!


De táxi para o semiárido nordestino

 Cabaceiras

Entrada de Cabaceiras

Museu municipal

Homenagem ao bode

Casario colorido da cidade, que virou set de filmagem de várias películas


Wagner brinca com o bode

Wagner e nossa guia, na praça principal da cidade














Gêmeos brincam na janela de uma casa

Coreto da praça principal

Paço Municipal

Estrada



Represa na região do Lajedo do Pai Mateus




 Lajedo do Pai Mateus










O motorista de nosso táxi

Eu me sento no local onde viveu o Pai Mateus


Pingos de chuva formam o belo arco-íris



Por do sol: espetáculo da natureza





 Sítio de Pedra do Ingá

Wagner mostra os entalhes rupestres

Itacoatiara do Ingá





Formas estranhas no piso chamam a atenção de ufólogos


Turnê Atacama/Uyuni Parte IV: Salar de Uyuni

  No bosque das bandeiras, atração do Salar de Uyuni Veja as fotos no final do texto Clique nas fotos para ampliá-las      Chegamos à última...