segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Na trilha dos Inconfidentes, entre Prados, Tiradentes, São João del Rey e outras cidades mineiras

Interior da impressionante Matriz de N.Sra.Conceição, em Prados

         No circuito mineiro das cidades históricas mineiras, Tiradentes e São João Del Rey ocupam um local de destaque. Mas próximas a estas importantes localidades, existem outros municípios menores, mas com vários atrativos e charme.
         Considerando os preços salgados de Tiradentes, escolhi a vizinha Prados para me hospedar. Encontrei o Apart Hotel Água Limpa por meio do site Booking. Chamou-me a atenção, apesar da simplicidade do local, que ele havia obtido nota 9,1 dos usuários. Quis checar o motivo da façanha.
         Não foi difícil reconhecer a qualidade dos apartamentos (novos, confortáveis e muito limpos), com um delicioso café da manhã e uma localização um pouco afastada do centro da cidade (menos de três quilômetros), o que garantiria repouso nos momentos mais barulhentos da festa. Os ruídos mais comuns eram o canto de galos, pássaros e maritacas ou o latido de alguns cães da vizinhança.
         No entanto, o maior diferencial do Água Limpa é o atendimento, capitaneado por Dona Teresa, proprietária do hotel. Simpaticíssima e com ótimas informações, ela está sempre com um sorriso no rosto e dicas excelentes para os viajantes. E ainda prepara boas guloseimas, sucos diferenciados e um saboroso iogurte natural. Em quase todas as oportunidades, ela era convidada para se assentar na mesa dos hóspedes, onde desfiava histórias muito instigantes sobre a região – e até algumas sobre sua própria vida. Trata o seu hotel como, literalmente, a extensão da sua casa. A família (marido e filhos) lhe dão o suporte no atendimento.
         Além do hotel, Prados é famosa por sua história e artesanato. Boa parte do que conhecemos em Tiradentes, por exemplo, é produzido em Prados, onde vivem e trabalham os artesãos, vendendo as peças em seus próprios ateliês ou residências. Dentre os objetos, estão os famosos animais em madeira (em especial os leões de Vila Carassa – assim mesmo, com dois “ss”), alguns em enormes, maiores do que o tamanho natural, e com muito apuro técnico. Há também jarros de flores, divinos (pomba do Espírito Santo) e bonecas, dentre tantas opções. São várias lojinhas, uma ao lado da outra, que nos absorvem com tamanha oferta. É preciso ter muita determinação para não estourar o cartão de crédito ou lotar o automóvel com as belas peças. A cidade ainda carece de um melhor atendimento bancário e muitas lojas só trabalham com cheque e dinheiro, o que de certa forma limita nossas loucuras. De acordo com um vendedor, muitos lojistas trabalham com atacadistas, que pagam principalmente em cheque.
         Em Prados também podemos conferir um pequeno, mas bonito, centro histórico, com antigos casarões e ruas estreitas. Muita coisa se perdeu (ou foi furtado) ao longo dos anos, mas ainda é mais suntuoso do que muitas cidades mineiras. A matriz de Nossa Senhora da Conceição, por exemplo, é uma obra prima. Vale a pena visitar também a bem restaurada capela do Rosário. O povo religioso, com seus cânticos, deixa os templos mais atrativos. A famosa Lira Ceciliana, uma das mais antigas corporações musicais mineiras, é de lá. Sua sede fica localizada perto da matriz.
         Há poucas opções de lazer na cidade, principalmente à noite, quando os jovens se concentram na praça principal para comer pizza, espetinhos, beber e conversar. Os restaurantes funcionam durante o dia, para o almoço. E o melhor deles é o Grotão, que fica na zona rural (2,5km do centro, por uma bem conservada estrada de terra). Vale a pena conferir, principalmente pela comida saborosa e o local bastante aprazível. Experimentei alguns pratos típicos mineiros, como costelinha com angu e couve. O preço gira em torno de 40 reais por pessoa, com bebida. Fui também o restaurante da Marília, que é mais simples, mas tem uma comidinha muito gostosa, em especial o feijão tropeiro (16 reais por pessoa).
         Passei a virada do ano em Tiradentes. Entre Prados e Tiradentes, há uma estrada, parte calçada e parte de terra, que passa pelo distrito de Bichinho (pertencente a Prados), grande centro de artesanato. São apenas 18km, que pode ser percorrido em menos de uma hora. No Largo das Forras, em Tiradentes, havia a apresentação de um grupo musical, que interpretada os hits do momento. Confesso que nenhum deles (axé, sertanejo e afins) foi especialmente de meu agrado, mas que provocavam um frisson no povo que aguardava a queima dos fogos. Enquanto eles não espocavam, jantei em um restaurante ali mesmo na praça (os estrelados, além de muito mais caros, estavam cheios na ocasião), que oferecia uma truta à parmegiana por R$ 58 (duas pessoas). Como sobrava tempo antes da meia noite, andei a pé pelas ruas principais, curtindo a tranquilidade e fotografando. Tiradentes é uma cidade extremamente fotogênica, com recantos maravilhosos e inspiradores.
         No dia 01 de janeiro, visitei São João del Rey. O dia estava ressaqueado e, para completar a paradeza, todo o comércio, monumentos e centros culturais estavam fechados. Restou percorrer as ruas históricas, fazendo algumas fotos. A cidade é muito bonita e imponente, com prédios bem conservados. Logo em seguida, parti para o município de Ritápolis, 15 km dali, para conhecer o restaurante Saliya, atração gastronômica do local. O chef proprietário teve a brilhante ideia de unir a culinária mineira à árabe, resultando em alguns pratos muito saborosos, que mesclam a nossa galinhada com charutos, quibes e temperos. Vale a pena conhecer, mas com o cuidado de reservar a mesa antes, pois o espaço costuma ser muito disputado. Felizmente, no horário que cheguei (com reservas feitas antecipadamente) não tive problemas.
         Na praça principal de Ritápolis, ao lado do restaurante, pode ser vista a igreja de Santa Rita, padroeira da cidade e alguns prédios interessantes, de épocas variadas. O edifício do teatro municipal é especialmente charmoso.
         Outra cidadezinha dos arredores é Coronel Xavier Chaves, que possui bom artesanato em tricô, bordados e abrolhos (uma espécie de acabamento também feito no mesmo estilo do crochê). Quase todo comércio estava fechado e, dos poucos que estavam abertos, não aceitavam cartões de crédito ou débito. Na praça principal, uma interessante igrejinha toda feita em pedra, provavelmente do século 18 ou 19. E uma tranquilidade de dar gosto.
         Conheci, ainda, o restaurante Monte Alverne, em São João del Rey, localizado em frente à igreja de São Francisco de Assis, a mais famosa da cidade. Jantei um salmão com risoto de alho porró muito saboroso, ao custo aproximado de R$ 70 per capita.
         Fiquei na região apenas quatro dias e haveria muitas outras opções para se divertir. O passeio de maria-fumaça entre São João e Tiradentes; as cachoeiras de Carrancas; as trilhas ecológicas da Serra de São José, dentre outras inúmeras possibilidades. Emoções, aliás, que já vivi em outras excursões por aquelas paragens.
         Para completar o pacote, antes de retornar à capital mineira, onde resido, uma passagem por Resende Costa, conhecida por seu artesanato em tecido. Dos antigos teares e até das mais recentes inovações tecnológicas, os artesãos produzem colchas, tapetes, redes, jogos americanos e uma infinidade de objetos incríveis, a maioria para cama e mesa. É possível encontrar também fantásticos móveis feitos com madeira de demolição. Os preços são ótimos, deixando alguns turistas até impressionados.
         Finalizo aqui meu caminho pela Trilha dos Inconfidentes, incluindo Prados, Tiradentes, São João del Rey, Coronel Xavier Chaves, Ritápolis, Resende Costa e (na estrada) Lagoa Dourada, a capital do “legítimo rocambole”. Uma viagem histórica, cultural e gastronômica, com um tempero de tranquilidade para relaxar as tensões e buscar inspiração para iniciar um ano de 2016 repleto de sonhos e desejos.

         Até o próximo roteiro!

Fotos de Thelmo Lins

Centro Histórico de Prados




















Matriz de Nossa Senhora da Conceição, de Prados





















Artesanato de Prados











Tiradentes (à noite)










São João del Rey



















Outras paragens


Forro da igreja matriz de Lagoa Dourada

Serra de São José, vista da região de Prados

Igreja de Santa Rita, em Ritápolis

Ritápolis

Resturante Saliya, em Ritápolis

Teatro Municipal de Ritápolis

Ritápolis

Capela em Coronel Xavier Chaves

Matriz de Coronel Xavier Chaves

Interior da Matriz de Resende Costa

Resende Costa

Resende Costa

Teatro Municipal de Resende Costa


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Bahia 7 - Na capital baiana

No Dique do Tororó, em Salvador



Tenho belas lembranças de Salvador, que conheci em 1995. Antes, havia passado alguns dias em Morro de São Paulo, paradisíaca ilha baiana. Depois, peguei um barco e fui para a capital. Ao ver o perfil da cidade, lembro-me claramente de cantarolar a canção “É D´Oxum”, de Gerônimo, gravada por Gal Costa. O impacto foi se intensificando à medida que chegava ao Pelourinho, onde ficaria hospedado. O hotel era muito simples, mas bem localizado. Naquela época, o Pelourinho estalava de novo. Tinha sido restaurado há pouco tempo e o casario era iluminado por um colorido intenso.
            Vinte anos depois, voltamos ao Pelourinho para nos hospedarmos no charmoso Bahia Café Hotel, na Praça da Sé, próximo ao Terreiro de Jesus. Outros coloridos invadiam a região, com as bandeirinhas da festa de São João. No entanto, apesar do forte policiamento, pairava no ar uma certa tensão. As pessoas nos alertavam insistentemente para cuidarmos das bolsas e das câmeras fotográficas, o que naquela época não parecia tão contundente. Havia muitos mendigos nas ruas e, pior, uma cracolândia bem próxima ao nosso hotel, que particularmente me assustou e me deprimiu. Ver aqueles jovens se drogando e comercializando as drogas era de cortar o coração. Mas, enfim, o que se pode fazer?
            Pelas informações que tivemos, a situação está bem melhor do que há dois ou três anos. Com a Copa do Mundo de 2014, houve uma “limpeza” geral na região. O prefeito atual, ACM Neto, é muito elogiado pelos moradores e taxistas que conversamos. Parece que ele “deu um jeito” na situação, colocando a cidade nos eixos.
            Tivemos apenas três dias para usufruir das terras soteropolitanas. Como havia um indício de chuva, planejamos cuidadosamente para não perdermos as boas atrações. Museus, galerias de artes, visitas ao mercado e aos principais edifícios históricos da região seria uma boa solução, aproveitando inclusive o fato de estarmos na área mais turística da cidade. Havia, também, a intenção de conhecer alguns bons restaurantes, notando que a gastronomia baiana vem se aperfeiçoando bastante. Particularmente, Wagner (meu companheiro de viagem) e eu queríamos voltar ao restaurante do SENAC, localizado no Pelourinho, onde é servida uma excelente comida baiana, com preços bem razoáveis.
            Não sou um expert em gastronomia. No caso da culinária baiana, sou uma negação total. Com problemas para ingerir frutos do mar, arrepio quando sinto o cheio de um camarão. Se comer, passo mal. Ou seja, não posso cometer nenhuma extravagância. Qualquer comida mais condimentada me obriga a tomar um antiácido. Mas consegui apreciar, assim mesmo, várias iguarias. Principalmente aqueles doces maravilhosos, como quindim, cocada baiana e manjar branco.
            No quesito patrimônio histórico, nada impressiona mais na Bahia do que a Igreja de São Francisco, também no Pelourinho. A quantidade de ouro e a pujança só são comparados com algumas igrejas mineiras. O rococó é intenso. Gastam-se horas para observar cada bordado feito naqueles altares. Coisa engraçada, pois o templo é dedicado a São Francisco, geralmente associado à austeridade e  à pobreza. Bem, aqui como em outras partes do mundo (especialmente na mesma Igreja de São Francisco, na cidade do Porto, em Portugal), essa máxima não foi observada. Tudo é de uma sofisticação de cair o queixo!
            Visitamos ainda o belo museu Carlos Costa Pinto, no bairro Vitória. Os antigos proprietários, colecionadores de obras de arte, doaram seu acervo à municipalidade e ainda disponibilizaram a antiga mansão da família para abrigar o acervo. Há um belíssimo mobiliário, recolhido de antigas famílias baianas que sofreram com a falência do período áureo do cacau e da cana-de-açúcar, peças religiosas, prataria e telas. As melhores partes do museu são a coleção de balangandãs e de joias usadas pelas escravas no século 19. Outra atração foi um dos seguranças do museu, que se revelou um grande conhecedor da música popular brasileira. Ele foi um guia fantástico para nós, pois transmitiu grande satisfação em cumprir sua missão. Em Salvador também visitamos um museu dedicado aos cartões postais, com fotos antigas da capital e de várias cidades do interior da Bahia.
            Outra passagem obrigatória, para todo bom visitante, é o Mercado Modelo, localizado na parte baixa de Salvador. Para acessá-la, utilizamos o icônico Elevador Lacerda, que está muito bem conservado. Seu uso foi gratuito nesse dia. No mercado, bem mais interessante do que da primeira visita que lá fiz duas décadas atrás, é um local interessante. Encontra-se de tudo um pouco em relação ao artesanato baiano. Há também dois restaurantes, com bela vista.
            Um dos pontos altos da nossa estadia foi conhecer um terreiro tradicional de candomblé. Da vez passada, estivemos Salvador no período da quaresma, quando não acontecem as cerimônias. Com o apoio de um guia, rumamos ao Alaketu, o mais antigo terreiro do país, fundado em 1636. É proibido fotografar ou filmar a cerimônia. Relato, apenas, que havia muitas danças, cânticos e batucadas. Há várias incorporações e manifestações, inclusive dos espectadores. O ambiente era muito familiar, com pessoas de todas as faixas etárias, entre elas, crianças bem pequenas. Em determinado momento, algumas pessoas saem da sala e decreta-se um intervalo. Logo após o curto período, a cerimônia é reiniciada, já com as mesmas pessoas trajadas como orixás, com paramentos belíssimos. Durante o período em que estivemos por lá, pensei na quantidade de coisas que existem no mundo e que não conseguimos explicar. São eventos que transcendem nosso conhecimento e provocam nosso lado mais racional. Senti-me tranquilo durante todo o tempo, pois acreditei que tudo aquilo era feito pelo bem da humanidade, pela paz e pela tradição religiosa, procedente da África. Foi impossível também não pensar na crueldade da intolerância religiosa, que – por preconceito – não aceita o diferente, o inusitado, o que não conseguimos compreender. Quase no final da cerimônia, o terreiro ainda nos ofereceu saborosos pratos da culinária baiana. Que outro templo religioso faria isso com tamanha sofisticação?
            Por falar em orixás, no dia seguinte fomos à região da Arena Fonte Nova para conhecer o Dique do Tororó, onde estão as gigantescas esculturas criadas pelo artista plástico Tati Moreno. O local lembra um pouco a região da Pampulha, em Belo Horizonte, e se transforma em uma grande área de lazer nos fins de semana.
            Outra atração foi conhecer o Balé Folclórico da Bahia, que tem sede no Pelourinho. Assistimos a um espetáculo da companhia, com algumas das mais expressivas danças tradicionais baianas. Confesso que esperei um pouco mais da apresentação, mas valeu a pena pela qualidade dos bailarinos, dos figurinos e dos músicos. Acho que, para o turista internacional, que lotava parte do auditório, a apresentação foi mais impactante do que para nós, brasileiros, que estamos acostumados a tanta folia. No quesito conforto, o teatrinho é uma lástima. Mas, mesmo assim, vale o ingresso.
            Antes de retornarmos à nossa cidade natal, Belo Horizonte, ainda tivemos tempo para visitar lojas de discos e comprar alguns CDs de artistas locais (coisa que sempre fazemos em viagens). Desta vez, colocamos na mala algumas obras de grupos ligados ao samba de roda, em gravações deliciosas. Trouxemos nas bagagens alguns livros com fotos de Pierre Verger e obras de Caymmi e Carybé, essenciais para quem quer se entranhar na história deste povo tão festivo.

            Encerro, aqui, os meus relatos da viagem à Bahia, em especial à Chapada Diamantina, Santo Amaro da Purificação e Salvador. Foram dias maravilhosos. Parafraseando os baianos, com muito axé! E que venham outras emocionantes viagens para nós! 

Fotos de Thelmo Lins e Wagner Cosse.






Igreja de São Francisco













Pelourinho











No restaurante do SENAC

Wagner no bufê do restaurante do SENAC

Imagem do Museu dos Cartões Postais

Grupo musical baiano apresenta-se no Pelourinho

Capoeirista

Bailarinos
Hotel Bahia Café
Centro Histórico de Salvador
Elevador Lacerda e Mercado Modelo
Porto
Dique do Tororó
Arena Fonte Nova

Fachada do Museu Carlos Costa Pinto

  






Com Wagner Cosse, brindando as delícias da culinária baiana


Turnê Atacama/Uyuni Parte IV: Salar de Uyuni

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