quinta-feira, 14 de março de 2019

Na Trilha do Cangaço ou da Resistência 9 – Piranhas, Canindé de São Francisco e na rota de Lampião e Maria Bonita

Na Grota do Angico, no município de Piranhas (AL), com o turismólogo Jairo Luiz Oliveira: o local onde Lampião e Maria Bonita foram assassinados (foto de Wagner Cosse

Fotos de Thelmo Lins e Wagner Cosse
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            Eis que chegamos literalmente à Trilha do Cangaço, às margens do Rio São Francisco, nas proximidades dos municípios de Piranhas (AL), Canindé de São Francisco (SE) e Paulo Afonso (BA). Optamos em nos hospedar em Canindé, pois as opções de hospedagem em Piranhas ou estavam com lotação esgotada ou com preços muito altos, para o padrão que nos impomos nessa jornada.
A cidade sergipana fica a apenas 12 km de Piranhas, a principal cidade do circuito. Nela estão localizadas a Hidrelétrica de Xingó, uma das maiores do país, e a melhor prainha do Velho Chico. Inclusive, foi nessa praia de rio que o ator Domingos Montagner (1962-2016) se afogou, causando grande comoção nacional. Tirando o fato de relembrar essa tragédia, o espaço é delicioso, com boa estrutura de barracas, restaurantes, estacionamento e segurança. No dia que estivemos lá, estava bastante tranquilo, com poucos banhistas.
Em Canindé também ficamos na pousada Vitória, a mais marcante de nossa viagem no quesito atendimento. Os proprietários são o jornalista Silva Junior e sua esposa Valquíria, que não mediram esforços para nos sentirmos em casa. Tanto que resolvemos estender nossa estadia, para curtir um pouco mais o ambiente tão agradável e acolhedor.
Além da praia Canindé também oferece o famoso (e belíssimo) passeio ao Cânion do Xingó, que já tínhamos feito em uma viagem anterior, e a visita à Hidrelétrica com seu museu de arqueologia, que não visitei (Wagner fez a visita).
O meu (nosso) interesse principal estava na Rota do Cangaço, ou seja, as trilhas por onde Lampião e Maria Bonita passaram na região. E, para realizarmos nossa meta, dois nomes foram fundamentais: o turismólogo Jairo Luiz Oliveira, de Piranhas; e o escritor João Sousa Lima, de Paulo Afonso. Tivemos a honra de tê-los nos ciceroneando por caminhos como a Grota do Angico, o museu Casa de Maria Bonita e os locais por onde o bando de Virgulino Ferreira passou. Pudemos apreciar histórias bem particulares, fatos que ainda não foram revelados pelos livros e que até contestam biografias de autores consagrados.
Descobrimos, também, que Lampião é o personagem mais biografado das Américas, batendo até mesmo o icônico Che Guevara. O Rei do Cangaço era uma figura ímpar, apesar de suas ações extremamente violentas. Era sanfoneiro e compositor e ainda costurava roupas, além de apreciar perfumes importados de Paris. Com Maria Bonita, compôs um dos casais mais midiáticos do país, que até suscitam lendas e causos.
Piranhas é um museu aberto. Linda, a cidade é bem preservada e mantém um vasto patrimônio histórico, devidamente tombado pelo IPHAN. Para coroar, ela situa-se à beira do São Francisco, compondo um casamento bastante harmônico entre natureza e as construções urbanas. A vista que se tem do alto dos dois principais morros do centro da cidade (um deles tem mais de 300 degraus!), principalmente no pôr-do-sol, é um presente dos deuses.
            Há também lugares muito agradáveis para se provar uma boa comidinha local, bater papo e fazer novos amigos. Existem muitos bares e restaurantes, que espalham mesas na praça principal da cidade, onde se pode apreciar a música local, em especial o forró, executada ao vivo. O melhor ficou por conta da Nossa Bodega, onde passamos a última noite na cidade, embalados pelo violão do sofisticado músico Camilo Lemos. A proprietária do espaço, Fabiana, é uma figuraça. Ela é quem dá a liga para que o lugar se torne uma casa aberta à arte, ao entretenimento e à amizade.
            Por falar em arte, Wagner e eu conhecemos também duas outras pessoas especiais em Piranhas: a atriz Amanda Acosta e o diretor teatral Sergio Módena. Eles estavam na cidade pesquisando sobre o cangaço, para uma peça que irão levar em São Paulo sobre as cangaceiras. Logo nos aproximamos e ficamos amigos, compartilhando muitas afinidades e interesses. Vale também ressaltar a companhia agradabilíssima de Angecila Oliveira, esposa de Jairo, que contagiou com seu humor fino. Ela é descendente do antigo coiteiro de Lampião, proprietário do terreno  da Grota do Angico, onde ele foi morto em 1938. Lá funciona atualmente um restaurante à beira do Rio São Francisco, para onde se chega de catamarã.
            Tudo em Piranhas e nas cidades vizinhas nos inspira: sua luz, suas cores, o sol, o rio, a música. Não é à-toa que o cantor Altemar Dutra (1940-1983), encontrava, na cidade alagoana, o refúgio para seus dias de fossa, pescando, bebendo e cantando canções, principalmente aquelas que não faziam parte de seu repertório. As visitas eram tantas que o povo o homenageou com uma estátua nas proximidades do porto.
              Outra ótima surpresa foi conhecer a cidade de Água Branca, localizada nas proximidades de Paulo Afonso. Ali viveu o Joaquim Antônio de Siqueira Torres, nominado Barão de Água Branca. O casarão onde ele e sua esposa viveram continua de pé, assim como a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, apelidada de Taj Mahal alagoano. Além da beleza de sua fachada e de seu interior, a igreja foi construída como um presente de amor do barão para a sua esposa Joaquina Vieira Santes, a baronesa. No entorno da igreja há vários prédios históricos bem conservados. Lá está o segundo ponto mais alto do Estado, com 570 metros de altitude. Do morro do Calvário podem-se avistar as belas montanhas da região, o Rio São Francisco e também apreciar o deslumbrante crepúsculo.
            Encerramos aqui esta etapa da viagem e agora rumamos para Canudos, na Bahia, onde visitaremos as terras que inspiraram um dos mais célebres clássicos da literatura brasileira, “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.


Canindé de São Francisco


Praia de Canindé, no Rio S. Francisco. Ao fundo a Hidrelétrica de Xingó

Wagner almoça com os pés nas águas do rio

Wagner e eu, com Laís (blusa preta) e Valquíria, da Pousada Vitória: ambiente acolhedor

Piranhas

Praça principal de Piranhas

Artesanato local

Artesanato local

Torre da cidade

Antiga estação ferroviária 

Antiga estação ferroviária, que hoje abriga o Museu do Sertão
Acervo do Museu do Sertão


Artesanato local, exposto no museu

Tipo de alpercata utilizada por Lampião e seu bando

Pertences de Lampião, no acervo do museu

Algumas das 600 biografias do Rei do Cangaço

Rio São Francisco em Piranhas

Matriz

Por-do-sol

Vista de Piranhas no fim de tarde, com o São Francisco ao fundo

Pracinha sendo preparada para o agito noturno




Wagner em um dos mirantes de Piranhas

Eu e o Rio (foto de Wagner Cosse)

Piranhas à noite


Fim de tarde em Piranhas

Jairo e eu, trocando presentes

Na bodega de Fabiana (ao centro, de cabelo comprido, ao lado da atriz Amanda Acosta): música e lazer

Museu Casa de Maria Bonita

Casa onde nasceu Maria Bonita

O acervo foi formado com peças da região

Maria Bonita e Lampião (dir)

Baú que pertenceu aos familiares de Maria Bonita

As cabeças cortadas de Lampião e Maria Bonita

Sala principal do museu

João Souza Lima, historiador e guia

Pequena vila, por onde o bando de Lampião sempre passava

Casas, como esta, que abrigaram o Rei do Cangaço, estão em ruínas

Casas de coiteiros de Lampião

Detalhe da decoração de uma das casas

Situação do acervo é precária

Memória do Cangaço está sendo destruída pelo tempo e pela falta de manutenção

Grota do Angico

Porto de Piranhas

Rota para a Grota do Angico, passando pelo Rio São Francisco de catamarã

Rio São Francisco


Área de lazer criada nas imediações da Grota do Angico


Trilha para a Grota



Flora local

Ponto de apoio na rota do Angico

Local onde Lampião, Maria Bonita e parte de seu bando foram assassinados

Placa descreve o nome dos cangaceiros abatidos


Imagem mostra Lampião (direita) e seus familiares

Angecila e Wagner
Prefeitura de Piranhas, onde as cabeças dos cangaceiros foram expostas

Por-do-sol no Rio São Francisco





Água Branca

Casa do Barão de Água Branca

Wagner e uma das casas do centro histórico

A fachada da Matriz de N.Sra. da Conceição: Taj Mahal alagoano

Detalhe da fachada

Detalhe da fachada

Interior da igreja











Outro exemplo do casario do centro histórico de Água Branca

Praça da Matriz

Casarão do centro histórico

Morro do Calvário de Água Branca





Wagner e o crepúsculo no Morro do Calvário



Wagner fotografa o por-do-sol

Fachada da Matriz à noite

Detalhe da iluminação noturna da matriz.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Na Trilha do Cangaço ou da Resistência 8 – Palmeira dos Índios e os Xucuru-Kariri

Casa de Graciliano Ramos, em Palmeira dos Índios, fechada para visitação (foto de Wagner Cosse)

Fotos de Thelmo Lins e Wagner Cosse
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Palmeira dos Índios é um município do centro-norte de Alagoas, com aproximadamente 75 mil habitantes. Historicamente, foi uma das mais importantes cidades do Estado, mas foi perdendo este status ao longo dos anos. Na região original onde o município foi plantado havia inúmeras tribos indígenas, o que originou o seu nome.
            Mas isso está no passado. O nosso interesse em passar por Palmeira atende pelo nome de Graciliano Ramos, um dos maiores escritores brasileiros e, com certeza, o maior nome das letras de Alagoas. Apesar de ter nascido em Quebrangulo, cidade vizinha, Graciliano viveu boa parte de sua vida em Palmeira dos Índios e foi o prefeito da cidade de 1928 a 1930.
            A casa onde morou se transformou em um museu. No entanto, apesar de ter sido realizada uma reforma no local, o imóvel está fechado (segundo informações que tivemos lá) há uns dois anos. Ou seja, frustração total.
            Fora isso, há muito pouco para se ver na cidade, além do museu municipal, denominado Xucurus, que ocupa a Igreja do Rosário. Nele estão, de forma um tanto quanto desordenada, um grande acervo de obras que vão desde peças sacras a objetos doados pela população, como roupas, utensílios, eletrodomésticos, artesanato e até indumentárias indígenas. A sensação é de muita coisa para pouco espaço. Alguns itens, no entanto, são interessantes e os guias do museu são atenciosos.
            A estação ferroviária se transformou em uma biblioteca e os antigos prédios atendem a demandas culturais, como artesanato, atendimento ao turista. Quebrangulo, que fica bem pertinho, tem um ar mais pitoresco, com casinhas coloridas e uma bela estação de trem.
            O que realmente salvou nossa estadia em Palmeira dos Índios foi conhecer a indígena Graciliana Selestino Wakanã, que pertence ao grupo dos Xucuru-Kariri. Gentilmente, ela nos levou às terras de seu povo, onde conhecemos sua família, dentre eles o seu pai, o cacique Manoel Selestino Wakonã. Também fomos ao campo sagrado, onde acontecem os rituais da sua tribo e lá presenciamos uma comovente apresentação de música e dança.
         Almoçamos com seus pais, conversamos sobre seu povo e compramos o artesanato fabricado por alguns dos componentes da tribo. Ouvimos relatos e histórias e até percebemos a preocupação com as invasões de seu território e com o futuro do seu povo, sempre ameaçado.
        No final, agradecemos à generosidade de todos e fizemos o nosso depoimento, reforçando o nosso amor por esses cidadãos que foram os donos de toda essa terra chamada Brasil.
       Para minha alegria, o pajé da tribo, Purinã Wakonã, nos ofereceu uma garrafada de ervas que, segundo ele, tinham poderes curativos para doenças do corpo e da alma.
            Vale ressaltar que, entre União dos Palmares e Palmeira dos Índios, optamos por uma estrada alternativa, que passava por Santana do Mundaú, Chã Preta e Paulo Jacinto. Um determinado trecho, que não era calçado, vislumbramos por momentos a sensação de estarmos de volta às montanhas de Minas, tal a semelhança. Vimos ainda um belíssimo cemitério, todo colorido, que nos encantou, e muitas imagens de Padre Cícero e Frei Damião, muito estimados na região.
            Deixamos Palmeiras em direção a Piranhas, para iniciarmos o roteiro típico do cangaço e seguimos os passos de Lampião e Maria Bonita.


Santana do Mundaú (AL), na estrada para Palmeira dos Índios

Cemitério de Santana do Mundaú

Estrada entre Santana do Mundaú e Chã Preta


Frei Damião, um dos grandes ícones da religiosidade nordestina

Outra escultura do Frei Damião, próxima a Palmeira dos Índios

Capela e santuário dedicados ao Padre Cícero

Pe. Cícero é figura de destaque no altar

Cemitério homenageia Pe. Cícero

Quebrangulo


Palmeira dos Índios

Prédio da prefeitura, onde Graciliano Ramos foi prefeito nos anos entre 1928 e 1930

Catedral de Palmeira dos Índios

Biblioteca municipal na antiga estação ferroviária

Museu Municipal

Museu Municipal ocupa a Igreja do Rosário



Xucuru-Kariri

Wagner experimenta cocar

Wagner veste-se como um membro da tribo

O pequeno indígena

Palmeira dos Índios vista das terras indígenas

Sincretismo religioso

Com Graciliana e suas duas filhas

Área sagrada dos indígenas


O cacique Manoel Selestino

Dança da tribo (detalhe)



O pajé Purinã



Cacique Manoel Selestino

O cacique no pátio sagrado dos Xucuru-Kariri: resistência e tradição

Turnê Atacama/Uyuni Parte IV: Salar de Uyuni

  No bosque das bandeiras, atração do Salar de Uyuni Veja as fotos no final do texto Clique nas fotos para ampliá-las      Chegamos à última...