segunda-feira, 13 de maio de 2013

Bahir Dar: a cidade dos monastérios

Confesso que o impacto da primeira impressão que tive da Etiópia me roubou o sono à noite. O que nos esperaria (a mim e ao Wagner, meu companheiro de viagem), nos próximos dias? Temos um roteiro a cumprir, mas sempre somos assaltados pelo inusitado, pela forte ação do homem na natureza e pela profunda e milenar cultura desse país.
Tomamos um avião para Bahir Dar, cidade banhada pelo lago Tana, uma região conhecida internacionalmente pelo grande número de monastérios.  A companhia aérea Etiopian já é por si só uma agradável surpresa. Os voos saem regularmente no horário, com uma precisão suíça.
A chegada a Bahir Dar foi fantástica, pois as principais avenidas estão repletas de belíssimas palmeiras, conferindo-lhe um aspecto imperial.
A cidade, aliás, conserva este passado em algumas construções, principalmente as religiosas.
O outro impacto positivo foi o hotel, o melhor da viagem até agora. Trata-se de um sofisticado spa localizado às margens do lago Tana, com uma infraestrutura impressionante. É claro que aproveitamos um pouco dos benefícios da pousada, com massagens relaxantes, mas isto foi mais tarde. O primeiro programa em Bahir Dar foi um passeio de barco, fazendo a travessia do lago. Como aconteceu das outras vezes, o serviço foi exclusivo para mim e para o Wagner.
O barco aportou num singelo píer, de onde prosseguimos por um caminho montanhoso, mas de fácil acesso. Ao longo da trilha, nos encantamos com árvores frondosas e pequenas lojas de artigos artesanais. O povo etíope, como comentei anteriormente, é de tamanha simpatia, que logo tentamos travar uma difícil, embora saudável, comunicação. A língua oficial é o incompreensível amárico, mas boa parte fala ou pelo menos arranha algumas expressões em inglês.
A proposta era visitar um dos mais famosos monastérios do país, o da Virgem Maria, administrado pela igreja ortodoxa. São mais de 30 espalhados na região de Bahir Dar, que foi um importante centro religioso no passado.
Por fora, o monastério é uma construção circular sem grandes atrativos, o que poderia provocar uma decepção à primeira vista. Mas é na parte interna que esse edifício do século 16 revela toda a sua suntuosidade e justifica o título de patrimônio da humanidade, conferido pela Unesco. Os antepassados legaram ao povo etíope uma obra de arte ímpar, além de um templo religioso de proporções épicas. As imagens não só retratam os principais personagens do cristianismo, mas também as cortes reais, os costumes da época, os preceitos bíblicos, as guerras, conflitos e festas. Um festival de cores e estampas extremamente minuciosas e sofisticadas, com um estilo marcante.
Ao lado do templo encontra-se outra construção de mesmo estilo, só que de menor tamanho, onde são observadas, em uma vitrine, várias coroas cerimoniais de religiosos e reis, que por ali passaram ao longo dos séculos. Apenas uma dessas preciosidades da joalheria etíope já justificaria a existência de um museu no local.
Compramos alguns objetos artesanais, mas os vendedores ainda oferecem café em grãos, sacos de incensos perfumadíssimos e pequenos barquinhos feitos de papiro, que saiu daquela região para o mundo. Neste contexto, vale ressaltar a alegria e a vibração dos comerciantes. Ficamos emocionados com a beleza e a ternura de uma família de mulheres (mãe e três filhas), que nos atenderam com cordialidade e gentileza.
O lago Tana, em Bahir Dar, é de onde nasce o Nilo Azul, um dos afluentes do rio Nilo. Além do misticismo e do peso histórico do caudaloso curso d´água, a sua visão é de grande beleza. As suas margens e pontes são fiscalizadas pelo exército, que restringem até mesmo as fotografias. Fomos registrá-lo em um mirante, de onde se vê boa parte a área central de Bahir Dar.
Vale inserir aqui uma situação vivida por nós no alto desse mirante, resultante - eu acredito - de uma certa histeria que a gente adquire por viver no Brasil, onde ocorrem muitos assaltos, principalmente em lugares ermos. Um grupo de jovens,  com faixa etária ente 16 e 18 anos me abordou. Logo, com meu preconceito, achei que se tratava de um assalto. Até que um deles me pediu licença e anunciou que eles faziam parte de um time de futebol que estava fazendo uma rifa para comprar uma bola oficial. Fiquei com vergonha do meu sentimento, dei uma ajuda para a turma, que ainda quis participar de uma fotografia quando souberam que nós éramos brasileiros, da terra de alguns de seus principais ídolos.
A moeda etíope se chama birr. Com um real, conseguimos comprar aproximadamente nove birr, o que tornam os serviços e compras extremamente vantajosos para nós. Para se ter uma ideia, um jantar completo com entrada e sobremesa sai por 130 birr. Com 2.000 birr, ou seja, um pouco maia de 200 reais, faz-se uma festa numa lojinha de artesanato. As gorjetas nos hotéis e restaurantes não passam de 20 birr. Um jovem engraxate nos cobrou 10 birr para dar um trato em cada par de sapatos. Comprei um xarope egípcio para minha tosse e um vidrinho de álcool (com uma estranha coloração arroxeada) por 40 birr. Um CD sai por 100 birr.
Outra coisa que nos chamou a atenção foram os aeroportos. São extremamente vigiados pelo exército e pela polícia. O passaporte é apresentado, no mínimo, duas vezes. Passamos, também duas vezes pelo scanner e raio-x de bagagens, tirando os sapatos, laptop, tablet, câmeras fotográficas em todas as ocasiões. Numa das vezes quase confiscaram uma fita crepe que carrego par vedar os frascos de xampu e outros líquidos. Segundo a segurança, o adesivo deveria (e acabou sendo transferido) para a bolsa que vai ao maleiro da aeronave.
Bem, após uma boa noite de sono no spa de Bahir Dar, em camas totalmente à prova de pernilongos e outros insetos, que felizmente não nos incomodaram, tomamos um café da manhã dos deuses e rumamos de carro para Gondar, a 180 quilômetros.
Salam!

No barco, no lago Tana, com a bandeira da Etiópia

O monastério da Virgem Maria

Eu e Wagner, com as pinturas do monastério ao fundo

Detalhe do monastério

Wagner observa a beleza pictórica do edifício

Outro detalhe da pintura

Bela família de comerciantes de artesanato, em Bahir Dar

Travessia de família no Rio Nilo Azul

Restaurante em Bahir Dar, debaixo da copa desta belíssima árvore

Wagner e eu curtindo a beleza do lago Tana, debaixo da árvore frondosa

No quarto do hotel-spa de Bahir Dar

Detalhe do hotel de Bahir Dar

Hotel em Bahir Dar: fantástico

Wagner e a piscina do spa
Eu e o Rio Nilo Azul, afluente do Nilo

Wagner e o time de futebol que nos vendeu uma rifa

O lago Tana

No café da manhã do hotel em Bahir Dar

Atendentes do hotel: belos e simpáticos etíopes

Avenida principal de Bahir Dar: palmeira

Dura vida das mulheres etíopes, carregando pedras para construção

Pássaro

Artesanato local

Vendedor exibe instrumento musical etíope

Outro habitante de Bahir Dar

Dura vida: carregando lenha

Habitantes do lago Tana
Eu observo o lago Tana: tranquilidade e beleza
  
A natureza faz sua festa às margens do Tana

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Embarcando para a África

O guia Assefa, eu e os vestígios de Lucy, de 3,2 milhões de ano

         Instalado no delicioso Jupiter International Hotel, em Addis Ababa (lê-se Adís Abeba), escrevo as primeiras notas da viagem que eu e Wagner Cosse, meu companheiro de viagem, empreendemos pela África, com o objetivo de visitar a Etiópia, o Quênia e a Tanzânia.
            Agora, estou mais tranquilo. Porém, nos últimos 10 dias, incluindo a semana que antecedeu à viagem, tropecei em resfriados, dores de garganta, dores de cabeça e um cansaço fora do normal. Cheguei a achar que estava com dengue, epidemia que consome os moradores da capital mineira, Belo Horizonte, onde vivo. Mas, não. Era um pouco de estresse com efeitos das oito vacinas que tomamos para poder viajar com segurança: contra febre amarela (obrigatória), meningite C, hepatites A e B, febre tifóide, tríplice viral, tétano e gripe.
            A viagem foi dominada pela tosse. Misturando com o cansaço de se não conseguir dormir direito, trocas de aviões, aeroportos, ar condicionado, peso das bagagens... ou seja, fiquei mal. Saímos de Belo Horizonte às 11h30 do dia 07 de maio de 2013 e chegamos à Addis Ababa, capital da Etiópia, no dia 8 de maio, às 20h30. No meio do caminho, paramos em São Paulo, Johanesburgo, Harare (capital do Zimbábue) e Lusaka (capital do Zâmbia; nesta, sem sairmos da aeronave). Além dos meus problemas de saúde, Harare nos reservou o momento de maior tensão da viagem. Tínhamos menos de uma hora para sair de um avião e pegar o outro voo para a Etiópia. Por isso, pedimos que os funcionários do aeroporto tentassem agilizar a nossa passagem pela imigração, procedimento comum nessas situações. Eis que uma mocinha muito educada, que trabalha no local, nos ofereceu para fazer o serviço, mas pegou os nossos passaportes e... não aparecia nunca mais com eles. Na verdade, foram uns 20 minutos de expectativa e um certo pavor até que ela surgiu novamente, com tudo resolvido. Ficamos constrangidos pela desconfiança, pedimos desculpas e nos despedimos aliviados.
           
            Depois de uma noite de sono (e um certo incômodo ainda pela tosse), amanhecemos na capital da Etiópia. Tudo que se lê a respeito do país é terrível. Quando comentamos com nossos amigos que vínhamos para cá, todos acharam uma loucura. Viajar para um país para ver a pobreza? Pobreza e Etiópia viraram sinônimos. Mas há outras tantas coisas que, por causa do preconceito e as imagens distorcidas, acabam ficando em segundo e até terceiro plano. Acredito que é o mesmo sentimento em relação ao Brasil. A imagem de sexo/futebol/carnaval ainda é       forte, apesar todo o nosso desenvolvimento e as melhorias pelas quais o país passou nos últimos anos. A Etiópia também é mercada por sua fome, pelos regimes ditatoriais, pela pobreza em que vive a maioria de sua população.
            Sob o viés do turismo internacional, descobrimos uma Addis Ababa mais cosmopolita, embora ainda sejam percebidas as desigualdades sociais e econômicas. Há uma série de belos edifícios sendo construídos nas ruas principais, a cidade é banhada pelo verde e seu povo, além de simpático, é muito colorido e bonito. São pessoas esguias, elegantes.
            Visitamos dois museus – um que pertence à universidade (que carece de melhores cuidados) e outro, o Arqueológico (mais bem administrado), onde está a ossada do que se conhece como a mais antiga manifestação do ser humano na Terra, o esqueleto de Lucy, com 3,2 milhões de anos. Foi encantador perceber a história deste povo, que já teve seus grandes momentos de importância na história da humanidade. Grandes impérios, uma diversidade cultural imensa, laboriosos trabalhos artesanais, instrumentos musicais sofisticados, obras de arte de expressão (inclusive de pintura e escultura moderna) constroem uma nova imagem deste país para nós.
            Outra experiência marcante foi a ida ao mercado, considerado o maior a céu aberto da África. Lá, vimos quase tudo que se pode imaginar da pretensa fama da Etiópia. Ruas sem nenhuma infraestrutura, produtos de todos os tipos, inclusive os artigos chineses - presentes no mundo inteiro -, além de artesanato, animais, especiarias e muita, muita gente. Como estávamos de certa forma blindados pelo nosso guia, fomos menos importunados do que o normal. Mas a presença de uma câmera fotográfica e de rostos com ares de turistas são a senha para um sem número de pedintes e, como na Turquia, de um assédio incrível dos vendedores. Tudo, sem esquecer, com uma boa dose de simpatia. É um povo alegre, apesar de tudo.
            Percorremos as ruas principais, fomos a um mirante, almoçamos em um charmoso restaurante típico, conhecemos a catedral e até fomos abençoados por um pastor da igreja ortodoxa. Chamou-nos a atenção o fato de que há censura em vários locais para fotografia. O guia nos alertava o tempo todo do que podia ou não podia ser registrado. Por exemplo, órgãos públicos, embaixadas, palácios governamentais e até alguns cemitérios. As fotos que tiramos de lugares assim, poucas, foram com autorizações.
            Por fim, o dia terminou num singelo café, pois a Etiópia, além de ser o berço da humanidade, também é o local onde o precioso líquido surgiu. E, dizem, onde é fabricado o melhor pó do mundo. Até mesmo o Wagner, que não costuma tomar café, quis experimentar essa iguaria etíope.
            Addis Ababa revela-se aos poucos, com seus cheiros, seu povo caloroso, seu trânsito caótico e suas matizes.
Agora, hora de descansar, curtir um show de jazz no restaurante do nosso hotel (quer mais?) e revigorarmos para a próxima etapa da viagem.

Algumas observações: 
É muito pequena a literatura sobre a África disponível em português. Tivemos dificuldade para pesquisar e até mesmo para formatar o nosso pacote. Para isso, foram importantíssimas as leituras de "Pé na África", de Fabio Zanini, e "Luzes da África", de Haroldo Castro.
Poucas agências brasileiras fazem o roteiro da Etiópia. Conseguimos realizar a viagem, a partir da atuação de Rita Conde, da Net Travel Diamond Mall, que conseguiu realizar o serviço, por meio da empresa Highland.

No mais, muita pesquisa na internet.


Detalhe da catedral ortodoxa de Addis Ababa

Pastor da igreja ortodoxa que nos abençoou

Interior da catedral

Um dos vitrais da catedral, que contam as histórias da Bíblia

Detalhe da área central de Addis Ababa

Instrumentos musicais no museu da universidade

Detalhe de pintura do século XV

Ingera, prato típico da Etiópia

Wagner no museu da Lucy

Lucy e eu

Vestimenta bordada em ouro dos antigos reis etíopes

Jovem observa pintura no museu da Etiópia

Pintura de Gebre Kristos, pintor contemporâneo da Etiópia

Interior do museu: história da humanidade

Sandálias usadas pelos antigos etíopes

Detalhe de pintura do século XV

Estátua de antigo líder etíope

Eu na cafeteria de Addis Ababa, experimento "o melhor café do mundo"

O povo etíope e o mercado















Turnê Atacama/Uyuni Parte IV: Salar de Uyuni

  No bosque das bandeiras, atração do Salar de Uyuni Veja as fotos no final do texto Clique nas fotos para ampliá-las      Chegamos à última...