segunda-feira, 3 de maio de 2021

Isaura Paulino: viajar é um caderno em branco para preencher.

Isaura Paulino: amor especial pela África

Mineira de Belo Horizonte, Isaura Paulino é uma viajante que escolhe lugares tão distantes e diferentes como Tailândia e Argentina, Chile e Filipinas. Turismóloga por formação acadêmica, ela atua no setor de cultura e entretenimento há 14 anos, organizando shows e eventos de diversas naturezas, como pessoa física ou por meio de sua empresa, a Ubuntu Produções. Atualmente, ela trabalha em Dubai. Embora tenha uma profunda conexão com a música, a paixão pela yoga e pelos vinhos, seu verdadeiro amor é viajar, em especial para a África, que chama de “continente mãe”. Lá ela conheceu Botswana, Namíbia, África do Sul e Moçambique. Estava presente no país sul africano quando seu ídolo, Nelson Mandela faleceu. Nesta entrevista, feita com exclusividade para o DESCOBERTAS DO THELMO, Isaura Paulino conta um pouco de sua perambulação pelo mundo. As fotos são do acervo pessoal de Isaura Paulino. 

DESCOBERTAS DO THELMO - O que é viajar pra você? 

ISAURA PAULINO - Viajar é sair fora da gente mesmo. É esquecer o que você sabe, pra poder ver com os olhos da primeira vez, da novidade. Sem vícios, achismos, (pre)conceitos. Viajar é se abrir para aprender. É ir de mochila vazia, caderno em branco, para preencher na jornada. Cada lugar novo que a gente passa, ou revisita, carrega uma história que só é possível entender ao vivo. Tudo é diferente. Ainda bem! Viajar pra mim é estar disposto, entregue e atento para “deixar e receber um tanto”. E pela lei natural das chegadas e despedidas, descobrimos que, muitas vezes, a beleza do movimento faz-se mais presente na jornada, do que no destino final. 


 “Passei pela África do Sul, Namíbia e Botswana. Nesse último, país do qual eu desconhecia a existência, morei por 20 dias, em uma vila de 3.000 habitantes. Fui a casamento, funeral, formatura, igreja. Passei meu aniversário, Natal, Réveillon. Virei atração turística.” 


 DESCOBERTAS DO THELMO - Quais as viagens que você mais gostou ou que mais marcaram a sua vida? 

ISAURA PAULINO - Acho que a viagem mais marcante da minha vida, foi a minha primeira ida à África. Sonhava em ir à África desde pequena. Na contramão da Disney, eu sempre quis conhecer o continente mãe. Mandela sempre foi pra mim um ícone. Quase um avô distante, de quem eu sempre quis me aproximar. Entre 2013 e 2014, consegui realizar meu sonho e parti. Sem lenço. Sem planos feitos. Só com o documento. Comprei passagem de ida, sem saber da volta... Eu estava lá quando Mandela morreu. Eu vivi a comoção de uma nação inteira, sob a perspectiva de quem pertence. Eu me sentia em casa. Eu estava em casa. No resumo da obra, minha jornada durou 40 dias. Viajei de avião, carro, ônibus. Passei pela África do Sul, Namíbia e Botswana. Nesse último, país do qual eu desconhecia a existência, morei por 20 dias, em uma vila de 3.000 habitantes. Fui a casamento, funeral, formatura, igreja. Passei meu aniversário, Natal, Réveillon. Virei atração turística. Fui acolhida por uma família que me provou que nada é por acaso e que meu anjo da guarda está atento e vigilante. A família que conheci lá, hoje é família que chamo de minha. E como uma boa filha à casa sempre torna, voltei em Botswana em 2018 e falo com eles sempre. Assim que a pandemia deixar, pretendo retornar. Minha primeira viagem à África foi, sem sombra de dúvidas, um divisor de águas na minha vida. Mas, cada uma das aventuras que já me lancei, me marcou de forma diferente: as praias paradisíacas em Zanzibar, os corais e águas cristalinas das piscinas naturais de Porto de Galinhas, o rei da selva perseguindo os búfalos no safari do Kilimanjaro, o show da Beyoncé em Joanesburgo, a primeira viagem internacional com meus pais para o Uruguai, a costa de Moçambique, os túneis de guerra no Vietnã, o refúgio de elefantes na Malásia, o tufão que me prendeu nas Filipinas, os templos maravilhosos da Tailândia, o deserto do Atacama no Chile, o maracatu de Recife, os vinhos em Buenos Aires... E eu poderia ficar aqui horas falando sobre tudo o que já vi e que assimilei como parte do meu caminhar. Mas, prefiro aconselhar para que, assim que possível, você que está lendo se lance em qualquer aventura, para criar memórias inesquecíveis, como as minhas. 

Em Botswana

Jornal publicado no dia da morte de Nelson Mandela

Em Soweto

Paisagem da Tanzânia


 “Sabe aquele banheiro público no final de show? Pois bem, imagina ele no final do show, só que com a 'celite' assim rente ao chão, pra você pisar, agachar, ficar de cócoras e fazer o seu xixi. Acho que nunca vivi nada parecido. E o pior, era o sistema de descarga: um balde com uma panelinha pra você encher e jogar na “celite”. Fiquei encarando aquela realidade por alguns segundos, tentando entender como eu ia fazer.” 


DESCOBERTAS DO THELMO - Conte alguma coisa que não deu certo ou que deixou você em uma saia justa. 

ISAURA PAULINO - Em 2016, eu estava na Tailândia. Tinha agendado um passei pra sair de Chiang Mai e visitar diversos pontos. Às 7h30 da matina a van passou no hotel para nos buscar. Na primeira parada do passeio, nos aconselham a usar o banheiro, já que a partir dali a viagem prosseguiria por alguma hora. Eu já tinha lido sobre os banheiros típicos tailandeses. Mas, não pensei que fosse ter que usar um. Minha vontade era a de procurar um matinho. Mas, não tinha nenhum discreto o suficiente. Sabe aquele banheiro público no final de show? Pois bem, imagina ele no final do show, só que com a “celite” assim rente ao chão, pra você pisar, agachar, ficar de cócoras e fazer o seu xixi. Acho que nunca vivi nada parecido. E o pior, era o sistema de descarga: um balde com uma panelinha pra você encher e jogar na “celite”. Fiquei encarando aquela realidade por alguns segundos, tentando entender como eu ia fazer. Tive que desenvolver o desapego da privada normal e ainda aprimorar minhas técnicas de yoga, pra conseguir ficar de cócoras sem cair dentro da privada. O passeio valeu? Muito! Mas é isso... ou você se hidrata no passeio e fica sujeita à casinha do terro, ou morre seca e não usa o banheiro das paradas. No final, tudo vira história! 

Latrina na Tailândia


 “Da minha percepção, a identidade de Dubai era pautada apenas em recordes vazios. Tipo, no meio de todos esses recordes, quem é daqui gosta do quê? Come o quê? Se expressa de que forma? Depois de vir pra cá, consegui conhecer um pouco mais da história, visitar a parte antiga da cidade, entender como Dubai cresceu e, impressionantemente, como se tornou esse polo de negócios e turismo.” 


DESCOBERTAS DO THELMO - Fale um pouco sobre a experiência de morar em Dubai. Como é a cidade, as surpresas e decepções. 

ISAURA PAULINO - Me mudei pra Dubai por conta de um projeto profissional. Dubai nunca tinha feito parte da minha lista de desejos, mas morar fora do Brasil era sonho antigo. Famoso pela arquitetura arrojada e pelo luxo, o Emirado é um destino bem diferente dos outros por onde passei. No conceito geográfico/antropológico, pra mim se enquadrava como um “não lugar”: aquele que não nos fornece um sentido, uma história. O maior prédio do mundo, o maior shopping do mundo, o maior jardim do mundo, o maior prédio residencial do mundo, a maior pista de ski indoor do mundo, o hotel mais luxuoso do planeta. Da minha percepção, a identidade de Dubai era pautada apenas em recordes vazios. Tipo, no meio de todos esses recordes, quem é daqui gosta do quê? Come o quê? Se expressa de que forma? Depois de vir pra cá, consegui conhecer um pouco mais da história, visitar a parte antiga da cidade, entender como Dubai cresceu e, impressionantemente, como se tornou esse polo de negócios e turismo. Entendi também que a maior parte da população aqui é de estrangeiros, que vieram pra cá ou nasceram aqui, em busca de melhores oportunidades. Então, natural a dificuldade de se encontrar uma identidade única pra expressar um lugar que na sua composição é tão plural e diverso. Estar no Oriente Médio é uma sensação diferente. Os costumes são outros. E, no início, a gente pensa que a liberdade tem outra nuance. Mas, está aí a magia de desvendar outras culturas e estar receptiva a entender o que a gente desconhece. Aprendo todo dia. Ainda é diferente pra mim ir à praia de biquini e ver uma mulher de burquini (burca) do meu lado. Mas, hoje eu entendo, que mesmo o conceito de liberdade, depende do referencial. E está tudo certo. 

Golden Triangle, na Tailândia (2016)

Krabi, Tailândia (2016)

Na Tailândia (2016)

Templo Branco, na Tailândia (2016)

No Vietnã (2016)

Batu Caves, na Malásia (2016)



DESCOBERTAS DO THELMO - Quais os planos de viagem para depois da pandemia? 

ISAURA PAULINO - Eu tenho vários planos de viagem, assim que a pandemia permitir. Penso em ir a Europa, que é um continente ainda desconhecido pra mim. Mas, acho que devo adiar temporariamente meus planos também por conta de trabalho e para receber meus pais e minha irmã em Dubai até o final de 2021. Para além da Europa, Egito e Índia estão na minha lista de próximos destinos. O plano é ficar em Dubai até abril de 2022, concluir essa etapa profissional e depois voar pra outro porto. Com uma parada estratégica no meu país Minas Gerais, claro. Sinto muita falta do meu mar de morros e das cachoeiras. Depois de trabalhar em tantas cidades diferentes, de conhecer outros países e culturas, tenho pra mim que meu lar é onde meu coração está. E o meu coração é do mundo. Mas, apesar disso, é sempre bom saber que a gente tem pra onde voltar. E vai ser sempre o Brasil.

Saltando de paraquedas em Dubai

Abu Dhabi (2020)

Centro Histórico de Dubai (2021)

Dubai

Outros destinos

Na ordem: Fotos 1 e 2 (Deserto do Atacama, 2015); 
Foto 3 (Serra do Cipó, Minas Gerais, Brasil)
Fotos 4 e 5 (viajando com a família para o Uruguai, em 2019)
Foto 6 (Porto de Galinhas, Pernambuco, Brasil, em 2021)
Foto 7 (Fazendo yoga em Dubai, em 2021)














domingo, 7 de fevereiro de 2021

EUROPA 13 - Visitando o Vaticano

 

Na Praça de São Pedro

 Clique nas fotos para ampliá-las

Como é difícil imaginar, no início de fevereiro de 2021, quando escrevo este texto, que ficaríamos quase um ano assolados pela pandemia do Covid-19, que nos obrigou a uma temporada de isolamento social, sem viagens, com as esperanças balançadas. Ainda mais no Brasil, um país que está com dificuldades de criar um plano de vacinação e a imunização da população corre a passos de tartaruga.

            E, nesse período, não pude e não quis viajar, preservando a minha vida. O turismo despencou no mundo inteiro, causando muito prejuízo. Mas, embora eu tenha me afastado um pouco do blog, tenho ainda pendências relativas à viagem de fiz em 2019 à Europa e que, apesar do tempo passado, ainda são pertinentes. Nesse tour, com os amigos Conceição, Vinicius e Wagner, passamos por Portugal, Espanha, França, Áustria e Itália. Grande deste percurso está narrado e devidamente ilustrado aqui, no Descobertas do Thelmo.

            Um dos locais, ainda inédito, abordo neste texto: o Vaticano. Há muito eu queria conhecer o epicentro do catolicismo, em especial as maravilhosas obras de arte que estão ali guardadas. Para isso, foi preciso comprar com muita antecedência, ainda no Brasil, tíquetes para visitar o Museu do Vaticano, com direito a uma guia que falava português. Ela, por sinal, era muito espirituosa e até mesmo irônica quando narrava a procedência das obras expostas, muitas obtidas de maneira ilícita ou pouco convencional para os padrões éticos de uma entidade religiosa, o que nos provocava risos. O valor do ingresso gira em torno de 20 euros.

Naquela época, em pleno verão europeu de 2019, quando não havia pandemia, o Museu do Vaticano recebia cerca de 40 mil pessoas por dia. Isso mesmo: 40 mil!!! É mais do que a população de muitos municípios. Façam as contas deste número multiplicado pelo valor do ingresso... Então, imagine a logística para atender tanta gente. Vale a pena ressaltar que eles exigem que a pessoa visite o espaço com roupas menos mais sociais, evitando bermudas, blusas muito decotadas etc. e tal. Afinal, íamos estávamos praticante dentro de uma igreja.

O museu – ou os museus, como alguns dizem – abrangem várias ramificações da história da arte. Visitei o acervo egípcio, as obras greco-romanas, a ala dos mapas e a galeria das tapeçarias. Nessas situações em que existe um acervo imenso e difícil de se conhecer em algumas horas, tenho, por hábito, me deixar levar pelas sensações e registro as obras que mais me chamam a atenção ou me comovem, além, é claro das obras primas.

Uma delas é o Lacoonte. A estátua o retrata ao lado de seus filhos, Antífanes e Timbreu, sendo estrangulados por duas serpentes marinhas, uma lenda relatada na “Eneida”, de Virgílio, dentre outras obras. Lacoonte era um sacerdote de Apolo, e este ficou bastante irritado quando seu discípulo se casou e teve filhos. Em represália, Apolo mandou duas serpentes para matarem os dois rapazes. Lacoonte morreu ao lado deles, na tentativa de salvá-los.

Dito isso, vem o mais interessante. A escultura propriamente dita foi criada entre 40 a.C. e o ano de 68 d.C. (segundo especialistas) e atribuída aos romanos Agesandro, Atenodoro e Polidoro. Depois disso, ela ficou mais de 1.000 anos desaparecida até que, em 1506, descobriram que ela estava soterrada debaixo das antigas Termas de Tito, em Roma. Fizeram sua retirada, embora ela estivesse desfeita em cinco pedaços. Logo ela foi identificada e restaurada. A sua beleza e técnica apurada chamou a atenção dos artistas e admiradores da arte, inclusive Miguelângelo, o maior escultor da época e talvez da história. Ele confessou que a escultura o fez repensar nas possibilidades técnicas de sua própria obra. Naquele momento, a história respirava os novos ares do Renascimento.

A decoração do espaço, digo do museu, também é digna de nota. É um deslumbre, pois são todas obras de arte, do chão até o teto. Um antigo piso feito em mosaico, que havia pertencido a uma terma romana, me chamou a atenção pela beleza e conservação.

Conduzidos pela guia, acabamos não visitando um dos lugares mais famosos do museu, as Salas de Rafael, aonde está, dentre outras, “A Escola de Atenas” (1511). Infelizmente, nem tudo é possível e acabei me conformando.

A visita se encerra com chave de ouro: a capela Sistina, onde está a obra prima de Miguelângelo e talvez uma dos mais marcantes e famosos afrescos já criados por um artista, tanto nas paredes quanto no forro. Pintados entre 1508 e 1512, com o auxílio de andaimes, a obra é famosa pelos sofrimentos causados ao artista, em especial pelos embates que travava com o papa da época, Júlio II. Este tema é retratado no filme “Agonia e Êxtase”, de 1965, com Rex Harrison e Charlton Heston. Embora romanceada, vale a pena conferir a película.

 Podemos ficar na capela não mais do que uns 15 minutos. Então, imagine a quantidade de choques que recebemos de todos os lados. É uma das coisas mais lindas que eu já vi em toda a minha vida. Só de entrar na capela, já valeu toda a viagem. A vontade é que ali estivesse vazio e que pudéssemos deitar no piso e ficar horas admirando cada detalhe. Não é permitido fotografar a capela. Então, me resta recordar os detalhes nos livros, na internet ou por meio de vídeos e filmes.

Quando a gente pensa que já viu tudo, a saída do museu passa pela Basílica de São Pedro, principal edifício do Vaticano e da Igreja Católica. E é um dos maiores templos do mundo, também. Tudo ali respira arte, mais até do que devoção ou oração. É muita obra de arte reunida, a começar pela Pietá, de Miguelângelo, a escultura mais famosa do mestre renascentista. O domo, de 136,5 metros, é arrebatador. E o Baldaquino, que fica no altar, impressiona por sua riqueza de detalhes.

Saio da basílica, acompanhado por meu amigo Vinícius (Conceição e Wagner foram em outra direção) e adentramos a praça de São Pedro, onde acontecem as principais festas religiosas. Geralmente, o papa aparece às quartas-feiras para dar a sua bênção. Nossa visita aconteceu numa segunda-feira. Descobrimos, por isso, que era um dos dias com menos afluxo de pessoas.

Ah, também vimos os famosos soldados da Guarda Suíça Pontifícia, que são responsáveis pela segurança do complexo e, por conseguinte, do papa.

A tarde caia e era hora de relaxar um pouco, caminhando pelas ruas históricas, e admirar a beleza que o céu azul de Roma proporcionava.

Arrivederci! Em breve, a gente se encontra para mais histórias.   

Coleção Egípcia





Lacoonte e seus filhos




Outras obras

Piso de mosaicos




Outro piso de mosaico, desta vez em formato arredondado




Galeria das tapeçarias



Galeria dos mapas





Basílica de São Pedro


Pietá, de Miguelângelo





Baldaquino

Cúpula e Baldaquino


Museus recebem 40 mil pessoas diariamente, em seu funcionamento normal

Detalhe do Baldaquino e altar da basílica

Praça de São Pedro


Guarda Suíça


Vinícius observa os detalhes da arquitetura








Turnê Atacama/Uyuni Parte IV: Salar de Uyuni

  No bosque das bandeiras, atração do Salar de Uyuni Veja as fotos no final do texto Clique nas fotos para ampliá-las      Chegamos à última...